MAR A
MAR
José
Ribeiro, Meu Pai - I
Fitou as próprias mãos e descobriu a infinita capacidade
da caneta rasgando traços no papel branco. Ajustou melhor o
ouvido e teve medo até da própria sombra: os fantasmas
rondavam a casa na infância e foi necessário acordar um
pai bom e generoso para pôr fim àquele pesadelo.
José
Ribeiro, Meu Pai - IIPartiu tão silencioso como sempre. Nem um queixume. Tantas
coisas para te dizer, tanta Dor, resistirás pois para
sempre e a minha memória é como um templo dourado. Que
mais te diria hoje? Bem sabes que o tempo ainda não é
propício para as sementeiras e todavia continuo a ver-te
teimosamente agarrado à terra.
Como não hei-de seguir as tuas pisadas se uma
pequenina luz brilha ao longe e já não há lugar para o
medo?
José
Ribeiro, Meu Pai
- III
Mesmo que a madrugada rompa como uma açucena é bom não esqueceres que o trigo se verga ao vento e que as ervas daninhas percorrem todo o campo em busca de alimento. Se ainda não esqueceste tudo, meu filho, lembra-te ao menos da forma maravilhosa do feijão irrompendo da terra naquela manhã de Junho em que ambos percorríamos a vinha e eu notei a tua estranha alegria enquanto ternamente me apertavas a mão.
Podes crer, Pai: não mais esquecerei o cheiro da terra e o sabor daquela água que bebemos juntos no vale, após uma longa caminhada pelos montes. Recordarei sempre a leveza da tua mão
poisada nos meus ombros.
O
DIFÍCIL COMÉRCIO DAS PALAVRAS
Zeca Afonso
Percebo
muito bem esse teu velho receio das estátuas e medalhas, é
assim o tempo que vivemos, às vezes amigos em barda e
outras vezes apenas a clara evidência da dor e do silêncio
nalguns momentos em que um estranho ruído saído do mar evoca a festa da nossa fraternidade.
Foi bonito pá, tanto mar, tanta gente, tantos milhares com
pequeninas luzes a brilhar e a certeza da tua presença
digna e vertical
À
maneira de posfácio ou como as viagens por vezes arrastam
consigo terríveis tragédias
Recorda uma conversa na aldeia quando a tua incomodidade
se tornava já insuportável e escreveste a pedido uns
papelinhos assim:
« - Eu, Teodósio Moreira, sou condutor das malas do
correio entre a estação dos Caminhos de Ferro e a
localidade, há já 35 anos. Sou um doente, pobre e tenho 75
anos de idade. Sinto-me por isso sem forças para continuar
esta vida. Nestas circunstâncias e apelando para a vossa
generosidade, venho pedir a V. Ex.ª se digne, se possível,
atribuir-me uma pensão ou subsídio que possa garantir o
resto do meu viver.
A
Bem da Nação
Teodósio Moreira»
A
bem da Nação. Ponto. Ganhava em 1941 cinco escudos por
dia, depois foi para seis escudos por dia, e trinta e dois
anos depois ajustaram-lhe cinquenta escudos por dia, mas
descontava sempre aos domingos e dias feriados, por mês
recebe mais ou menos mil e duzentos, mil e trezentos
escudos. Aos sábados à noite vai à estação buscar a
mala e é obrigado a dormir num palheiro em cima duma
serapilheira, pois o amigo tem pena dele e deixa-o dormir de
graça.
Aos
domingos também aí dorme para trazer o correio na segunda
de manhã. Como consegue chegar à estação? Vai às
dezassete e dez da tarde num burro e espera pelo comboio que
só passa às vinte e uma e treze minutos. Levanta-se às
três da manhã para poder receber a mala das três e
trinta, depois sai às seis da manhã para chegar aqui às
oito e entregar o correio para a distribuição. Quando não
pode paga vinte e cinco escudos ao táxi para lhe trazer a
mala. Se estiver doente mete um homem por conta dele a quem
paga tudo o que ganha e para isso ainda é obrigado a pedir
autorização aos Correios que podem rejeitar o homem, por
ter qualquer defeito, falta de idoneidade moral, ou
robustez, ou outras coisas semelhantes.
Se
sai da localidade acontece o mesmo. O correio vai à praça
de dois em dois anos, mas em trinta e cinco anos (trinta e
cinco anos) nunca o pôs na praça. Tem um fiador e duas
testemunhas que se comprometem a fazer o mesmo serviço. A
empregada sempre lhe pagou nos Correios, mas agora veio uma
ordem que o proíbe e obrigam-no a ir receber à vila nas
Finanças.
Uma
vez esteve doente e a mulher, a sua mulher, foi fazer-lhe o
correio e ficou debaixo de um comboio, por descuido dela. Nunca lhe pagaram nada. O comboio cortou-lhe uma perna,
secou-lhe o sangue, não havia médico e foi morrer à
cidade. Isto já foi há treze anos, tinha sessenta e um
anos.
Ganha
há cerca de dois anos (dois anos!) os tais cinquenta
escudos, antes ganhava vinte e sete escudos.
Tem
o burro há treze anos e a despesa do burro é mais ou menos
metade do ordenado. Pediu para escrever a ministros e
disseram-lhe que não tinha direito.
Quando
chove e há trovoada, haja o que houver, tem sempre que
romper... A Bem da Nação, pois então!