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   Livros

   

 

 

TODOS OS LIVROS, DIZ ELE
José Antunes Ribeiro
  
 

Preço -  Esc
280 pag. ; 14,5 x 20,5 cm

Editora Ulmeiro ; ISBN 972-706-301
-2
IMAGEM DO CORPO
- nº 66

 
     TODOS OS LIVROS, DIZ ELE - José Antunes Ribeiro

Este Livro é a soma de outros quatro: "Mar a Mar" (1981), "O Difícil Comércio das Palavras" (1984) "Fragmento e Enigma" 1985 e "Rio do Esquecimento" (1993). Mas ao contrário do que aprendi na escola, creio bem que este todo não é a soma das partes. É outra coisa. E não apenas pela morte anunciada de muitos adjectivos e advérbios e por uma ou outra alteração de forma.

José Antunes Ribeiro

"... aprendi que os livros nunca estão acabados, que é possível que as histórias se continuem a escrever a si próprias, sem o autor."

Paul Auster

 
MAR A MAR
 

José Ribeiro, Meu Pai - I
 
Fitou as próprias mãos e descobriu a infinita capacidade da caneta rasgando traços no papel branco. Ajustou melhor o ouvido e teve medo até da própria sombra: os fantasmas rondavam a casa na infância e foi necessário acordar um pai bom e generoso para pôr fim àquele pesadelo.

 
José Ribeiro, Meu Pai - II

Partiu tão silencioso como sempre. Nem um queixume. Tantas coisas para te dizer, tanta Dor, resistirás pois para sempre e a minha memória é como um templo dourado. Que mais te diria hoje? Bem sabes que o tempo ainda não é propício para as sementeiras e todavia continuo a ver-te teimosamente agarrado à terra.
 
Como não hei-de seguir as tuas pisadas se uma pequenina luz brilha ao longe e já não há lugar para o medo?

José Ribeiro, Meu Pai - III

Mesmo que a madrugada rompa como uma açucena é bom não esqueceres que o trigo se verga ao vento e que as ervas daninhas percorrem todo o campo em busca de alimento. Se ainda não esqueceste tudo, meu filho, lembra-te ao menos da forma maravilhosa do feijão irrompendo da terra naquela manhã de Junho em que ambos percorríamos a vinha e eu notei a tua estranha alegria enquanto ternamente me apertavas a mão.
Podes crer, Pai: não mais esquecerei o cheiro da terra e o sabor daquela água que bebemos juntos no vale, após uma longa caminhada pelos montes. Recordarei sempre a leveza da tua mão poisada nos meus ombros.

 
O DIFÍCIL COMÉRCIO DAS PALAVRAS
 
Zeca Afonso
 
Percebo muito bem esse teu velho receio das estátuas e medalhas, é assim o tempo que vivemos, às vezes amigos em barda e outras vezes apenas a clara evidência da dor e do silêncio nalguns momentos em que um estranho ruído saído do mar evoca a festa da nossa fraternidade.
 
Foi bonito pá, tanto mar, tanta gente, tantos milhares com pequeninas luzes a brilhar e a certeza da tua presença digna e vertical
 
À maneira de posfácio ou como as viagens por vezes arrastam consigo terríveis tragédias
 
Recorda uma conversa na aldeia quando a tua incomodidade se tornava já insuportável e escreveste a pedido uns papelinhos assim:
 
« - Eu, Teodósio Moreira, sou condutor das malas do correio entre a estação dos Caminhos de Ferro e a localidade, há já 35 anos. Sou um doente, pobre e tenho 75 anos de idade. Sinto-me por isso sem forças para continuar esta vida. Nestas circunstâncias e apelando para a vossa generosidade, venho pedir a V. Ex.ª se digne, se possível, atribuir-me uma pensão ou subsídio que possa garantir o resto do meu viver.

A Bem da Nação
Teodósio Moreira»

A bem da Nação. Ponto. Ganhava em 1941 cinco escudos por dia, depois foi para seis escudos por dia, e trinta e dois anos depois ajustaram-lhe cinquenta escudos por dia, mas descontava sempre aos domingos e dias feriados, por mês recebe mais ou menos mil e duzentos, mil e trezentos escudos. Aos sábados à noite vai à estação buscar a mala e é obrigado a dormir num palheiro em cima duma serapilheira, pois o amigo tem pena dele e deixa-o dormir de graça.

Aos domingos também aí dorme para trazer o correio na segunda de manhã. Como consegue chegar à estação? Vai às dezassete e dez da tarde num burro e espera pelo comboio que só passa às vinte e uma e treze minutos. Levanta-se às três da manhã para poder receber a mala das três e trinta, depois sai às seis da manhã para chegar aqui às oito e entregar o correio para a distribuição. Quando não pode paga vinte e cinco escudos ao táxi para lhe trazer a mala. Se estiver doente mete um homem por conta dele a quem paga tudo o que ganha e para isso ainda é obrigado a pedir autorização aos Correios que podem rejeitar o homem, por ter qualquer defeito, falta de idoneidade moral, ou robustez, ou outras coisas semelhantes.

Se sai da localidade acontece o mesmo. O correio vai à praça de dois em dois anos, mas em trinta e cinco anos (trinta e cinco anos) nunca o pôs na praça. Tem um fiador e duas testemunhas que se comprometem a fazer o mesmo serviço. A empregada sempre lhe pagou nos Correios, mas agora veio uma ordem que o proíbe e obrigam-no a ir receber à vila nas Finanças.

Uma vez esteve doente e a mulher, a sua mulher, foi fazer-lhe o correio e ficou debaixo de um comboio, por descuido dela. Nunca lhe pagaram nada. O comboio cortou-lhe uma perna, secou-lhe o sangue, não havia médico e foi morrer à cidade. Isto já foi há treze anos, tinha sessenta e um anos.

Ganha há cerca de dois anos (dois anos!) os tais cinquenta escudos, antes ganhava vinte e sete escudos.

Tem o burro há treze anos e a despesa do burro é mais ou menos metade do ordenado. Pediu para escrever a ministros e disseram-lhe que não tinha direito.

Quando chove e há trovoada, haja o que houver, tem sempre que romper... A Bem da Nação, pois então!

 

 
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